Reedição dos posts publicados originalmente em 2003 no blog O Franco-Atirador (ver link ao lado).

15 Fevereiro 2004

1. Anarquia e gnosticismo 

Falando das rebeliões populares na Boêmia e na Alemanha, na Suíça e nos Países Baixos do século XVI, Kropotkin escreve:


Este movimento começou por ser anarquista-comunista, pregado e posto em prática em algumas comarcas. E, abstraindo as suas fórmulas religiosas, que constituíram um tributo pago à época, encontramos nele a mesma essência das idéias que nós, anarquistas, representamos atualmente: negação de todas as leis do Estado ou divinas — a consciência de cada indivíduo é que deve ser a única lei aceitável; a comuna, dona e senhora absoluta de seus destinos, recuperando, dos senhores, todas as terras, e negando ao Estado o tributo pessoal ou em dinheiro; enfim, o comunismo e a igualdade postos em prática.[1]


De que movimentos exatamente esse, que é um dos principais ideólogos do anarquismo, estava falando, e nos quais ele reconhecia uma ancestralidade direta para os princípios anarquistas? De que movimentos, senão das heresias cristãs que constituíram um ressurgimento do gnosticismo no seio da sociedade medieval? Eis Kropotkin dando nome aos bois:


Na Boêmia teve o nome de movimento hussita; e de anabatista, na Alemanha, na Suíça e nos Países Baixos. Pode-se afirmar que estes movimentos, além de constituírem uma revolta contra o senhor, tinham uma outra característica: a revolta completa contra o Estado e contra a Igreja, contra o direito romano e contra o direito canônico, em nome do cristianismo primitivo.[2]


De fato, os historiadores reconhecem que os anabatistas, hussitas, bogomilos e até mesmo os franciscanos, que depois seriam absorvidos pela igreja, bem como os jansenistas e inclusive o protestantismo primitivo reeditam uma série de atitudes e crenças que se originaram do gnosticismo e permaneceram como uma corrente subterrânea até os secs. XIV a XVI, quando explodiram em revoltas populares e movimentos milenaristas. Na raiz dessa corrente subterrânea encontra-se a primeira grande heresia cristã medieval, o catarismo, cujos vínculos diretos com a gnose já foram mais que estabelecidos e que, depois de ter sido desbaratado pela igreja, continuou influenciando as artes como o trovadorismo[3] e as ciências como a alquimia[4].


Portanto, indiretamente, Kropotkin reconhece o gnosticismo como ancestral do movimento anarquista. De fato, uma declaração do líder anabatista Denck, que Kropotkin cita como evidência do caráter anarquista do anabatismo, expressa a mesma concepção de autoridade que os gnósticos sempre defenderam e que está na raiz de sua oposição à ortodoxia cristã:


...quando perguntaram a Denck, um dos filósofos do movimento anabatista, se reconhecia a autoridade da Bíblia, ele respondeu que somente a regra de conduta que um indivíduo encontra, para si, nessa mesma Bíblia, é que constitui a obrigação da sua consciência.[5]


Que Kropotkin considere o aspecto religioso desses movimentos como um tributo pago à época é, evidentemente, um tributo que o próprio Kropotkin paga à sua época, o mesmo tributo que levou Marx e Bakunin a defenderem o ateísmo. Abstraindo-se esse tributo, resta o fato de que o movimento anarquista pode-se proclamar herdeiro em linha direta do gnosticismo — como a leitura que Bakunin faz do mito de Adão e Eva demonstra eloqüentemente.[6]


Um dos vetores através dos quais o pensamento gnóstico se conservou durante a Idade Média foram as guildas, sociedades secretas e associações profissionais[7], das quais a mais conhecida é a franco-maçonaria. Uma vez que o sigilo profissional mantinha as autoridades afastadas do que se passava no interior dessas organizações, às quais só se tinha acesso após uma cerimônia de iniciação rigorosa, elas funcionavam como foco de desenvolvimento e conservação de idéias heréticas. A franco-maçonaria, especialmente, conservou a concepção de mundo gnóstica, aliada a um simbolismo alquímico que persiste ainda hoje, mesmo quando qualquer vínculo dessa sociedade com os pedreiros e construtores que lhe deram origem se perdeu, sendo substituído por um formalismo vazio que, no entanto, remonta a uma época em que esses rituais ainda tinham um significado vivo.


Diante dessa relação entre as associações profissionais e o gnosticismo, e à luz do que vimos sobre o vínculo entre anarquismo e movimentos religiosos medievais, não surpreende que Kropotkin reconheça nas guildas e congêneres outro avatar do que depois se tornaria o anarquismo:


Homens de direito consuetudinário e de iniciativa individual, e que ainda não tinham sido pervertidos pela corrupção que emana de um governo ou de uma Igreja, uniam-se diretamente entre si, constituindo fraternidades ajuramentadas, sociedades políticas e religiosas, uniões de ofício — guildas, como se dizia na Idade Média, ou Çofs, como dizem hoje os kabilas. [...]


É muito duvidoso que naquela época houvesse um único homem, livre ou escravo - e salvo aqueles que eram postos fora da lei pelas suas próprias fraternidades — que não pertencesse, independentemente da sua comuna, a uma fraternidade ou a uma guilda.[8]


À luz dessa série de elementos que permitem traçar uma linha entre o gnosticismo e o anarquismo, pelo menos tal como visto por Kropotkin, ganha um novo significado o fato de o autor reconhecer no Império Romano a origem de todos esses males que, em tempos modernos, viriam a coagular em torno da noção de Estado:


O império romano foi um Estado na verdadeira acepção do termo. Até os nossos dias, esse império ainda subsiste, para o legislador, como um império ideal.


Os órgãos desse império cobriam, como uma rede imensa, um vasto domínio. Tudo afluía para Roma: a vida econômica, a vida militar, as relações jurídicas, as riquezas, a educação e até a própria religião. De Roma vinham as leis, os magistrados, as legiões para defender o território ameaçado, os governadores, os deuses. Toda a vida do império remontava ao Senado — e, mais tarde, a César, o onipotente, o onisciente, o Deus! Cada província e cada distrito tinham o seu Capitólio em miniatura, a sua pequena porção de soberano romano para dirigir toda a vida local. Uma única lei — a lei vinda de Roma, eis o que reinava em todo o império; e este império não representava, de modo algum, uma confederação de cidadãos: era, apenas, um rebanho de súditos.[9]


Para os gnósticos também o Império Romano era a mais perfeita encarnação do inimigo a ser combatido — a saber, o sistema de dominação universal, que se estendia desde o campo político e social até os planos metafísico e espiritual, imiscuindo-se em todos os setores da vida e sujeitando cada indivíduo. Não resta a menor dúvida que os gnósticos reconheceriam no estado moderno o mais recente avatar desse sistema de dominação, o que levou um escritor encharcado de idéias gnósticas como Philip K. Dick a proclamar que o Império nunca acabou.[10]


E, a julgar pelo que Kropotkin escreve no final do livro, nunca vai acabar:


A história não tem sido uma evolução ininterrupta. Repetidas vezes a evolução tem se detido em tal ou qual região para recomeçar de novo.


O Egito, a Ásia antiga, as costas do Mediterrâneo, a Europa central têm sido, alternadamente, teatro da ação progressiva da história. Mas, de cada vez que esta evolução tem começado, iniciando-se na sua fase primitiva para passar depois à comuna rural e, em seguida, à comuna da cidade, tem vindo a morrer, finalmente, na fase Estado.[11]


Isso pressupõe uma concepção cíclica da história: se escolhermos outra vez a comuna, esta não acabará por sua vez se degradando em Estado, como supostamente aconteceu no Egito, Assíria, Pérsia, Palestina, Grécia, Roma e Europa? Não creio que acrescentar apenas mais uma volta no parafuso seja a solução. A verdadeira questão, parece-me, é determinar que fator, na condição humana — seja ele histórico, social, biológico ou metafísico — é responsável por essa inevitável degradação da comuna em Estado, a fim justamente de torná-lo evitável. Foi essa questão que os gnósticos se colocaram, e que a magia se propôs a superar.








[1]
Piotr Kropotkin, O Estado e seu papel histórico, São Paulo, Ed.
Imaginário, 2000, pp. 57-58.




[2]
Ibid., p. 57. O grifo é meu.




[3]
Cf. Denis de Rougemont, O Amor e o Ocidente, Rio de Janeiro, Ed.
Guanabara, passim. Foi provavelmente junto aos trovadores, leitura constante
do jovem Francisco de Assis, que o movimento franciscano foi buscar suas idéias
libertárias.




[4]
Para as relações da alquimia com o gnosticismo, cf. C. G. Jung, Psicologia
e Alquimia
e Aion — Estudos Sobre o Simbolismo do Si-mesmo,
ambos publicados em português pela Ed. Vozes, Petrópolis.




[5] Kropotkin, op. cit., p. 58. Para
a versão gnóstica desse princípio, que passa pela valorização da experiência
individual, a gnose, como única fonte legítima de autoridade, cf. Elaine
Pagels, Os Evangelhos Gnósticos, São Paulo, Ed. Cultrix.




[6]
Mikhail Bakunin, Deus e o Estado, São Paulo, Ed. Imaginário, 2000,
pp. 15-17.




[7]
Seria interessante pesquisar se é possível determinar uma filiação
direta entre essas associações e os sindicatos dos trabalhadores que começaram
a se organizar no sec. XIX e logo se transformaram no principal núcleo de
difusão do comunismo e do anarco-sindicalismo.




[8] Kropotkin, op. cit., pp. 24-25.




[9]
Ibid., pp. 10-11.




[10]
Philip K. Dick, O Mistério de Valis, Lisboa, Ed. Livros do Brasil.




[11] Op. cit., p. 92.





2. Gnosticismo e Magia 

O encontro entre magia e anarquismo vem sendo preparado há muito tempo ao longo da história. Embora, nas tribos ditas primitivas, o feiticeiro freqüentemente fosse parte integrante da ordem estabelecida, cuja autoridade andava pari passu com a do chefe político - a dobradinha cacique/pajé, tão freqüente ainda hoje entre as tribos indígenas - e às vezes ambos os papéis fossem encarnados pela mesma pessoa, o xamã solitário, que vivia à margem da sociedade e era encarado com um misto de reverência e desconfiança pela comunidade também não era uma figura incomum. À medida que adentramos os tempos históricos, essa dualidade se mantém e continuamos encontrando, lado a lado, o mago da corte, prodigalizando seus conhecimentos em benefício dos reis, e o bruxo anti-social, que persegue suas metas completamente isolado dos negócios políticos.


Individualismo, porém, ainda não é anarquismo. O cultivo da individualidade e o respeito ao espaço pessoal são, na melhor das hipóteses, o terreno psicológico a partir do qual uma atitude anarquista possa se desenvolver. Em termos aristotélicos, é uma condição necessária, mas não suficiente. Para que a atitude de rejeição às coisas do mundo - especialmente as de natureza política - se cristalizasse em uma postura afim do anarquismo, foi preciso que entrasse em cena um outro fator, que atribuísse um significado ontológico à individualidade e estabelecesse, de uma vez por todas, sua oposição às hierarquias e estruturas de poder.


Um sistema de dominação universal. - Esse fator foi o gnosticismo. Contemporâneo do cristianismo, mas alcançando seu ápice no século II da nossa era, o movimento gnóstico efetuou uma síntese de todas as religiões e crenças do mundo antigo, reconfigurando-as para adaptá-las a uma nova visão de mundo. No coração do gnosticismo, está a convicção visceral de que o mundo em que vivemos não é a verdadeira realidade, mas um simulacro ilusório criado com o único propósito de escravizar a consciência humana. Assim, nossa realidade consensual é modelada e atravessada de cabo a rabo por um mesmo sistema de dominação universal, que rege desde as leis naturais - o que hoje denominaríamos de condicionantes biológicos do nosso comportamento - até a esfera metafísica. Nossa própria psicologia é ao mesmo tempo um resultado e um instrumento para a manutenção do sistema. Os gnósticos valentinianos denominavam esse sistema de sístase, termo ao qual ainda voltaremos. E, evidentemente, a autoridade política, em todos os seus níveis, não passa de um representante autorizado da sístase, a encarnação viva dos princípios e leis cujo único propósito é manter o ser humano submisso. Daí que o gnosticismo se caracterize por uma tendência que os especialistas denominam de antinomialismo (do grego nomos, lei), ou seja, uma oposição sistemática a todas as formas de lei e de autoridade.


Não é difícil reconhecer na tendência antinomialista dos gnósticos a raiz do anarquismo. De fato, se estudarmos a história do pensamento anarquista, veremos que ele remonta a movimentos político-religiosos que explodiram na Europa a partir do século XII, a maior parte dos quais era uma revivescência do gnosticismo - na primeira encarnação do Franco-Atirador, postei um texto a respeito disso que, como está fora do ar há algum tempo, talvez eu republique aqui. Assim, o anarquismo pode ser considerado, sem nenhuma simplificação, como uma espécie de versão laica do gnosticismo, o gnosticismo despojado da moldura metafísica que lhe servia de base.


Altos e baixos da magia. - Acontece que a magia ocidental, da forma como veio a se constituir do século II em diante, também tem seus fundamentos no gnosticismo. Quando os gnósticos promoveram sua síntese de todas as religiões presentes no mundo antigo, atribuíram uma posição de destaque à filosofia neoplatônica, que tinha como principal objetivo entrar em contato com as forças arquetípicas, personificadas sob a forma de deuses. As fórmulas e técnicas desenvolvidas pelo neoplatonismo para invocar esses deuses foram incorporadas ao gnosticismo na íntegra, mas com uma diferença fundamental: as imagens arquetípicas passaram a ser vistas como um símbolo para a verdadeira realidade, cuja percepção normalmente nos é toldada pelo mundo de sombras que é nossa realidade consensual.


Foi assim que surgiu o que ficou conhecido no esoterismo ocidental como alta magia. A alta magia se distingue da baixa magia (também chamada de feitiçaria) porque, nesta última, o mago invoca as forças arquetípicas com o objetivo de influenciar determinados aspectos da nossa realidade em seu próprio benefício ou em benefício dos que o contraram: a magia é utilizada para conseguir fama e fortuna, para derrotar inimigos ou atrair amores. É inteiramente voltada para as coisas do mundo e as forças arquetípicas não passam de instrumento para se conseguir algum ganho material.


Por sua vez, na alta magia, que continua coerente com os pressupostos do gnosticismo, o mago procura invocar as forças arquetípicas com a finalidade de promover uma alteração em sua própria consciência, libertando-a dos padrões cognitivos e comportamentais que alimentam o estado de sístase, na mesma medida em que mantém a consciência acorrentada ao sistema. Personificadas ou não sob a forma de deuses (isso varia de escola para escola e depende muito do estilo particular do mago), as forças arquetípicas atuam como ácidos que dissolvem as estruturas calcificadas da consciência, liberando suas energias para a percepção de outros níveis da realidade.


É evidente que, em sendo o mago bem-sucedido nessa tarefa, ele inevitavelmente entra em choque com as hierarquias políticas, que atuam como cães de guarda do sistema. Como disse São Paulo, num contexto que só é diferente na aparência, a graça eleva o homem acima das leis deste mundo, tornando-o independente da obediência à autoridade secular. É por esse motivo que, ao longo de toda a era cristã, na maior parte das vezes - com algumas exceções que apenas confirmam a regra -, os magos viram-se impiedosamente combatidos pelos representantes da ortodoxia, estivessem estes travestidos de governos, sacerdotes ou cientistas. Tal perseguição habitualmente toma duas formas, que às vezes se complementam: tenta-se calar o mago ou pela força bruta ou lançando sobre ele o manto do descrédito, como se a magia não passasse de um amontoado de superstições absurdas. O grande emblema dessa perseguição contínua, que ultrapassa fronteiras geográficas ou orientações políticas (o mago foi perseguido tanto pela inquisição católica quanto pelo totalitarismo stalinista), é a execução de Giordano Bruno, queimado em praça pública pela prática da magia.


3. A Imaginação no Poder

 

As duas correntes que se originaram do gnosticismo - a mágica e a política, esta última representada pelos anarquistas - vieram a se reencontrar explicitamente no início do século XX, na figura de Aleister Crowley, que construiu seu sistema mágico a partir de uma afirmação cujo sabor anarquista não escapará a meus Vinte Fiéis Leitores: "Faze o que tu queres há de ser toda a Lei." Crowley deu o primeiro passo para libertar a magia das grossas camadas de superstição que se depositaram sobre ela ao longo dos séculos, reconhecendo que os dois principais esteios da prática mágica são a imaginação e a vontade. Mas é preciso compreender claramente os princípios que esses nomes designam, para não confundi-los com o uso quotidiano das palavras, que corresponde a um aspecto empobrecido e limitado da verdadeira imaginação e da verdadeira vontade.


A mentalidade racionalista, cerebral, que veio se formando a partir da ascensão da ciência como nova dominante ideológica, sempre encarou a imaginação com desprezo. Para ela, a imaginação é uma faculdade vã, responsável apenas por devaneios e fantasmagorias que empalidecem diante do império da razão, única força capaz de conduzir à verdade. Foi só com o advento da psicologia e da psicanálise que teve início um movimento de revalorização da capacidade imaginativa, do qual a psicologia arquetípica de James Hillman constitui o ponto culminante. De acordo com essa nova perspectiva, a imaginação é a capacidade mais importante de que o ser humano dispõe e, na realidade, a imaginação acaba se tornando uma maneira alternativa de se referir à própria psique como um todo. Com isso, a psicologia se reaproxima da visão mágica que, mesmo antes de Crowley tornar isso explícito, sempre concedeu à imaginação uma importância tão grande que não é de excluir que mesmo as palavras magia e imaginação compartilhem da mesma origem.


No século XVI, Paracelso definiu a imaginação como a capacidade que torna possível ao homem se elevar acima da realidade imediata. Essa definição vai ao encontro do conceito sartreano de nadificação, e que Sartre considerava a principal característica da consciência: seu poder de negar a realidade imediata, projetando outras realidades alternativas. A imaginação desrealiza o mundo criado pelo estado de sístase e que nos é empurrado como sendo absoluto e inquestionável. Com isso, ela nos faz perceber que nosso mundo, tal como se apresenta, é apenas uma das muitas realidades possíveis, permitindo-nos escolher livremente entre elas.


O grande segredo que torna isso possível - segredo de polichinelo, já que afirmado com todas as letras pelas religiões e sistemas esotéricos pelo menos desde os tempos do hinduísmo - é que a própria realidade consensual é fruto da imaginação. De fato, a deusa-mãe, que foi a primeira divindade adorada pela humanidade e que nos mitos mais antigos é mostrada como a criadora que pariu o mundo de seu ventre, é uma representação personificada da imaginação. Os hindus a chamavam de Maya - palavra que, em sânscrito, significa ao mesmo tempo "ilusão" e "o poder divino de produzir formas". Para os gnósticos, ela é Sophia, o primeiro éon a emergir do pleroma, palavra que em grego significa "plenitude" e que designa a verdadeira realidade. Foi Sophia quem se tornou involuntariamente responsável pela criação do nosso mundo. E é na cosmogonia gnóstica que jaz a chave para entender o duplo papel da imaginação, como geradora de uma falsa realidade que nos aprisiona e, ao mesmo tempo, como a potência capaz de nos libertar dessa realidade.


O mito da criação gnóstica começa com a queda de Sophia. Os motivos para essa queda variam de versão para versão, embora a maioria delas a atribua à curiosidade de Sophia. Seja como for, Sophia se perdeu na escuridão do caos. Perdida, ela sentiu medo e uma angústia que oprimia seu peito. Às vezes, quando se lembrava de seu antigo lar, a lembrança a fazia sorrir e, em seguida, chorar por não estar mais lá. Essa mistura de emoções foi, então, exteriorizada, projetada para fora de Sophia sob a forma de uma massa escura, da qual brotou espontaneamente uma entidade, que os gnósticos batizaram de Ialdabaoth. Trata-se do demiurgo, que se tornou o criador do nosso mundo.


Ialdabaoth tomou a massa de que havia nascido e a separou em quatro partes: das lágrimas de Sophia, fez a água; o peso de sua angústia, ele transformou em terra; com o calor da alegria, produziu o fogo; e transformou o medo de Sophia no ar. Com esses quatro elementos, construiu o universo, do qual proclamou-se Deus. Para ajudá-lo a governar o mundo que havia criado, fez os arcontes, que se tornaram os co-regentes do cosmo. Os arcontes são uma encarnação da autoridade em seu forma mais absoluta e totalitária, e os governantes terrestres - seculares ou religiosos - são os vigários dos arcontes na Terra.


Enquanto isso, porém, a Divindade suprema, que não tem nome nem forma, apiedou-se de Sophia e enviou um emissário para resgatá-la. Uma parte dela, porém, ficou presa na pseudo-realidade criada pelo demiurgo, submetida ao poder dos arcontes. É desse aspecto inferior de Sophia, chamado Achamoth, que se compõe o espírito humano e que precisa ser libertado do poder da autoridade.


Evidentemente, esse mito não é para ser tomado ao pé da letra. Seu significado é alegórico, e os gnósticos estavam plenamente conscientes disso.Um dos traços característicos dos textos gnósticos é o que Plotino denominava de dramatourgía: os gnósticos pegavam conceitos filosóficos abstratos, transformavam-nos em personagens simbólicos e convertiam os processos metafísicos em narrativas, dentre as quais o mito de Sophia é, de longe, o mais importante. Se retraduzirmos o mito para a linguagem filosófica, lembrando que Sophia é uma personificação da imaginação (ou da psique, o que, neste caso, vem a dar no mesmo), obteremos o seguinte quadro: nossa realidade é produzida pela imaginação alienada de si mesma. Essa alienação é duplamente indicada no mito pela queda de Sophia e pela exteriorização de suas emoções. A imaginação alienada engendra uma série de estruturas - os arcontes - que condicionam e impedem a livre expressão da imaginação. A realidade que percebemos é o resultado final dessa imaginação alienada e empobrecida, e as hierarquias de poder não são mais do que um reflexo social das estruturas psicológicas simbolizadas pelos arcontes.


As concepções gnósticas são confirmadas pelas pesquisas da psicologia da percepção e das neurociências contemporâneas. O que essas disciplinas constataram é que as imagens que percebemos com os nossos sentidos (imagens no sentido amplo, e não apenas visual) não são uma cópia fiel de uma realidade exterior que o sistema sensorial se limitaria a fotografar, mas verdadeiras construções do cérebro que representam, não os objetos externos, mas a interação entre o nosso organismo e os estímulos sensoriais provenientes do objeto. No limite, aliás, não temos nem mesmo como saber se existe um objeto externo responsável pelos estímulos, uma vez que tudo o que temos é o resultado final desse processo de interação. Em outras palavras, nossa realidade é feita única e exclusivamente de imagens mentais. E a faculdade responsável pela criação de imagens mentais é, evidentemente, a imaginação. Logo, os gnósticos estavam certos: a realidade consensual é fruto da imaginação.


No entanto, a ciência demonstrou também que, quando cria essas imagens, nosso cérebro é limitado por determinados padrões cognitivos, que o neurocientista luso-americano António Damásio chama de representações dispositivas. As representações dispositivas formam um conjunto de padrões neurais que contêm instruções codificadas, as quais ensinam ao cérebro como construir ou reconstruir uma determinada imagem. Dentre as diversas interpretações possíveis que o cérebro poderia adotar para transformar os estímulos sensoriais em imagem, as representações dispositivas selecionam apenas algumas, pré-definidas e armazenadas num banco de dados, excluindo todas as outras. Em outras palavras, os esquemas cognitivos previamente codificados no cérebro limitam as possibilidades da imaginação, exatamente como os arcontes gnósticos. Tudo estaria muito bem se as representações dispositivas tivessem uma função corretora, ou seja, se elas corrigissem as distorções da percepção, aproximando a imagem do objeto real. Mas, como vimos, não há como saber qual a aparência do objeto real. Então, de onde vêm as instruções que dizem à imaginação quais as imagens que ela deve criar? A resposta das neurociências não deixa margem a dúvidas: as representações dispositivas são internalizadas por meio do processo de socialização.


A maneira como vemos os objetos é determinada, pois, pela maneira como o cérebro categoriza esses objetos e a maneira como o cérebro categoriza esses objetos é determinada pela maneira como a sociedade categoriza esses objetos. Vemos o mundo que vemos apenas porque vivemos na sociedade em que vivemos. Diferentes sociedades adotam convenções igualmente diferentes e convenções diferentes se traduzem em percepções da realidade também diferentes. Se a realidade que percebemos é construída pelas representações dispositivas e se essas representações dispositivas se originam da concepção de realidade compartilhada pelos membros de uma dada cultura, então, num sentido bastante literal, a realidade que percebemos é uma construção social.


A concepção de realidade compartilhada pelos membros de uma dada cultura é o que os sociólogos denominam de "ideologia", estudada por um ramo específico da sociologia chamado de sociologia do conhecimento. A referência fundamental sobre esse campo é A Construção Social da Realidade, de Peter L. Berger e Thomas Luckmann (publicado no Brasil pela Ed. Vozes). Nesse livro, os autores analisam os mecanismos sociais de legitimação e institucionalização, por meio dos quais cada sociedade define o que considera como real e organiza esses elementos dentro de uma concepção unificada do que é a realidade. Analisam também os processos através dos quais essa realidade social é internalizada por meio da socialização e se transforma na realidade subjetiva que cada um de nós experimenta como sendo "a" realidade.


O ponto a ressaltar aqui é que essa realidade construída socialmente não é arbitrária. A concepção unificada de realidade compartilhada pelos membros de uma dada sociedade apresenta uma estrutura coerente, que reflete a estrutura da própria sociedade. Mais exatamente, a ideologia é uma representação simbólica das tensões e conflitos que decorrem dessa estrutura e permeiam o tecido social. Esse ponto é posto em relevo pelo antropólogo Clifford Geertz em "A Ideologia como Sistema Cultural", incluído em seu livro sobre a interpretação das culturas.


Retomando o fio da meada, isso significa que nossa percepção é moldada pela imaginação mas, nesse processo, a imaginação é condicionada pela ideologia. Conseqüentemente, ao que tudo indica, uma vez mais os gnósticos estavam com a razão: ao criar o mundo que percebemos, a imaginação é restringida por determinados fatores que estão intimamente relacionados com as estruturas de poder da sociedade.


Essa breve incursão pelos domínios da psicologia e da neuropsicologia nos permite redefinir os termos que apresentei na primeira parte deste ensaio. A sístase gnóstica, como agora já deve ter ficado claro aos meus Vinte Fiéis Leitores, é o sistema formado pelas representações dispositivas que condicionam a imaginação. E o estado de sístase corresponde tanto à condição psicológica da imaginação alienada de si mesma quanto à imagem do mundo produzida por essa condição. Dessa forma, compreende-se porque a alta magia é basicamente um trabalho com a imaginação: seu propósito é desmontar as representações ideológicas que limitam a imaginação, restituindo-a à sua plenitude original. Trata-se de uma verdadeira operação alquímica, cujo alvo é transmutar a imaginação, de máquina de fabricar ilusões no poder divino de criar uma realidade mais ampla.


4. De Crowley ao Caos 

No último episódio, deixamos nossa heroína, a imaginação, aprisionada na mão dos arcontes depois de ter sido forçada por eles a fabricar uma pseudo-realidade de acordo com os parâmetros que eles determinaram. Crentes de que vivem no mundo real, os seres humanos estão aprisionados a esse cosmo ilusório, onde sua consciência é submetida e dominada por estruturas hierárquicas de poder que eles próprios alimentam sem se dar conta disso. Também vimos, porém, como ao longo de toda a história existiram homens e mulheres que se dedicaram a combater esse estado de coisas, opondo resistência à dominação política e social, ao mesmo tempo em que procuravam desenvolver técnicas para libertar a consciência dos padrões cognitivos que distorcem a nossa percepção da realidade. Em algum ponto de sua trajetória, esse objetivo único acabou se dividindo em duas frentes de combate, dando origem a dois grupos distintos, que seguiam seu caminho totalmente inconscientes dos vínculos que unem um ao outro. De um lado, os anarquistas tomaram para si a tarefa de lutar contra os poderes do mundo, que nascem e são sustentados pela distorção da psicologia humana que nos faz interpretar todas as nossas relações com os outros seres e com a realidade como uma disputa de poder. Do outro, os magos e esoteristas que, cientes do caráter ilusório de nossas percepções, buscavam expandir a consciência, a fim de ter acesso à verdadeira essência do real ou, pelo menos, contemplá-la de uma perspectiva mais ampla do que a imposta pela realidade consensual.


A divisão entre anarquistas e magos acabou sendo prejudicial a ambos os grupos. Com exceção de uns poucos rousseauístas românticos, que acreditam ingenuamente na bondade intrínseca do homem, os anarquistas logo descobriram que é impossível transcender as relações entre exploradores e explorados sem efetuar uma completa reestruturação de nossa psique. Somos programados para sermos egoístas e carregamos essa programação conosco para onde quer que formos. Uma vez que essa programação é determinada pelo processo de socialização, acreditou-se inicialmente que bastava mudar a sociedade para que a psicologia humana também se transformasse. Boa na teoria, na prática essa estratégia se revelou desastrosa. Não houve comunidade ou colônia anarquista que não tenha sucumbido a pressões internas e disputas intestinas de poder. O exemplo mais notável desse fracasso foi a União Soviética que, embora tenha surgido de uma revolução comunista, e não anarquista, começou por substituir a sociedade de classes da Rússia Czarista por uma organização política descentralizada, os sovietes, nesse ponto análogos às federações autônomas com que sonham os anarquistas de esquerda. Bastaram menos de vinte anos, contudo, para que a experiência dos sovietes chegasse a um beco sem saída, e logo as hierarquias de poder, a divisão de classes e as relações de exploração voltassem a se impor, com a diferença de que a função da classe dominante, que outrora coubera à aristocracia russa, agora era exercida pelos quadros burocráticos do Partido Comunista.


Percebendo que uma revolução exclusivamente política seria insuficiente, muitos anarquistas voltaram-se para a educação e a psicoterapia como ferramentas para desmontar as bases autoritárias da consciência e do ego. A psicanálise, a vegetoterapia reichiana e a bioenergética foram convocadas a fornecer instrumentos que ajudassem a vencer os mecanismos repressivos que levam o homem a uma postura de servidão ou dominação. Mas, ancoradas em uma visão de mundo de caráter biológico, essas técnicas só conseguiam avançar até determinado ponto, o da libertação da vida instintiva do homem, depois do qual encontravam uma barreira intransponível: aquela representada pela própria realidade consensual, que continuava gerando padrões de dominação mesmo depois de todas as terapias e desbloqueios. Deveria ser evidente que a raiz do problema está na própria natureza da realidade que percebemos e, no entanto, a adesão incondicional a um realismo estrito, em geral até comprometido com o materialismo, impedia esses pioneiros de perceber que há um além-da-realidade que deve ser buscado.


Do lado da magia, a situação não era muito melhor. Despida de sua relevância política e social, a magia se transformou em uma busca solitária por conhecimento e poder. Trancado em seu gabinete de estudos, o mago queria compreender os mecanismos que produzem a ilusão deste mundo, não para transcendê-los, mas para obter controle sobre eles e utilizá-los para se conseguir benefícios materias e/ou políticos. Em vez de exorcizados, os demônios passaram a ser escravizados, a fim de gerar riqueza, controlar as forças naturais e, uma vez mais, predominar sobre as outras pessoas. Era a degeneração da magia em baixa magia, a magia estudada para fins egoístas. Foi daí que surgiu a figura do mago da corte, que oferecia seus préstimos ao soberano que pagasse mais e tornou-se uma eminência parda com grande influência em muitas cortes da Europa medieval e renascentista, e até na Rússia czarista - como esquecer a controvertida figura de Rasputin?. Foi daí também que, por um longo percurso já devidamente esmiuçado pelos historiadores das idéias, originou-se a ciência ocidental, com seu projeto de alcançar o maior grau possível de previsão e controle sobre todos os fenômenos. A imaginação, de deusa soberana que era originalmente, avançou mais um passo em sua degradação e transformou-se em razão instrumental. Helena em um bordel de Tiro.


Não se trata, bem entendido, de satanizar esse processo. Dele resultaram muitos frutos positivos. Algumas das técnicas mais eficazes da magia, a exemplo da magia enoquiana, foram desenvolvidas por magos da corte, como John Dee, e sem a ciência, filha natural da baixa magia, eu não estaria escrevendo estas palavras em um blog da Internet. O ponto a destacar é que, com isso, a magia ocidental conservou seus instrumentos mas perdeu de vista seu objetivo primário, assim como o anarquismo conservou o objetivo mas perdeu as técnicas. Me parece óbvio que essas duas abordagens são complementares, visto que cada uma tem o que falta à outra. Felizmente, se acompanharmos a história da magia e do anarquismo ao longo do século XX, perceberemos que, tanto de um lado quanto do outro, começam a se esboçar os primeiros ensaios no sentido de uma reunificação. Não é por nada que o lema de Crowley, talvez o maior mago do século passado, seja o célebre "faze o que tu queres há de ser toda a lei", da mesma forma que não é por coincidência que o anarquismo ontológico de Hakim Bey beba maciçamente das fontes da magia e do esoterismo. Os caminhos misteriosos do mago e o sendeiro luminoso do anarquismo finalmente virão a confluir no que se tornou conhecido como a magia do caos, a respeito da qual ainda voltaremos a falar.


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